Passada a euforia do anúncio feito pelo Itamaraty, de que empresa chinesa Foxconn fechou acordo com o governo brasileiro para produzir iPads no Brasil, é hora de fazermos as contas e ver o que é verdade e o que não é como imaginamos que seria.

O Ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, fez um comentário, logo após a presidente Dilma se reunir com Terry Gou, presidente das organizações Hon Hai, que controla a Foxconn, de que o Brasil receberia uma linha de montagem do iPad.

Na hora todos nós, brasileiros, ficamos felizes, pois seria uma oportunidade de vermos os preços do produto da maçã cair no mercado nacional. Mas agora que a poeira baixou um pouco, especialistas explicam que a história é bem diferente do que os aproveitadores políticos espalharam através da imprensa.

Em excelente artigo pela Folha de São Paulo, as jornalistas Camila Fusco e Sofia Fernandes publicaram hoje, 15/04/11, uma matéria que pode vir a ser um banho de água fria nos geeks brasileiros.

De acordo com a matéria, a Foxconn precisará desenvolver estratégias para superar os obstáculos industriais existentes no Brasil. Foi dado destaque a formação e ao custo da mão de obra, importação de componentes, câmbio e até a organização da produção.

A matéria cita que a cadeia produtiva dos componentes para tablets, como o iPad, é muito sensível, pois praticamente nenhum componente presente nas tablets é fabricado no Brasil e a Foxconn terá um desafio muito grande para criar uma logística eficiente para garantir o envio desses componentes rapidamente da China para o Brasil

É destacado também que se a unidade brasileira da Foxconn for a responsável pelas exportações dos aparelhos, a coisa fica ainda mais complicada, pois segundo o que especialistas disseram, até que a produção esteja ajustada, a maior probabilidade é que os equipamentos fabricados no Brasil custem até 5% a mais do que hoje. Ou seja, o que era pra melhorar, pode piorar!

O que pode nos acalmar é que, em maio, será votado pelo Governo a questão relativa a tributação das tablets no país. Se serão, ou não, enquadradas na MP 517, que diz que computadores e notebooks devem receber incentivos fiscais, como redução de 15% para 3% do IPI e isenção de PIS e Confins, barateando o preço final do produto.

O que é verdade é que, depois de podermos sonhar com produtos da Apple sendo fabricados por aqui e com preços mais justos no mercado nacional, a verdade dura e crua é jogada na nossa cara.

O governo insiste em não investir em educação e por isso o Brasil corre o risco de não conseguir atingir o objetivo de ter uma linha de produção do iPad, gerar 100 mil empregos e exportar o produto, o que é muito benéfico para a nossa balança comercial.

Na minha opinão, a Foxconn deverá tomar um susto, caso queira levar seu plano de fabricar iPads no Brasil, pois o fato de não fabricarmos praticamente nenhum componente em território nacional, dificultará as coisas. Imagina se um navio, no meio do caminho China-Brasil, tem algum problema e atrasa sua chegada ao país? Já é suficiente para que a linha de montagem diminua o ritmo de fabricação, o que gera perdas financeiras.

Sobre a questão de fabricar tais componentes por aqui, a coisa não é simples. 50% dos displays fabricados são descartados por problemas de qualidade. As peças e circuitos possuem materiais tóxicos, metais pesados e vidro, que são prejudiciais a natureza. Deve haver planejamento no descarte desses materiais e é necessário licença ambiental. Todos nós sabemos que a burocracia presente no país pode desanimar qualquer investidor na hora da montagem de uma fábrica dessas.

Enfim, vamos acompanhar de perto o desenrolar da história e torcer para que o Governo do Brasil, pelo menos uma vez na vida, mostre competência e consiga superar todas estas dificuldades, mas uma coisa é certa: alguém aqui ainda duvida que o Brasil já passou da hora de investir mais em educação?

Esqueci. Investir em educação não dá voto.